“não sinto os dedos como meus”

Começo por agradecer à minha amiga, cujo nome não vou revelar por sigilo profissional, que me deixou expor esta frase que ela me contou numa consulta.

não sinto os dedos como meus

Vou explicar o caso: depois de uma lesão traumática perfurante nas imediações de um nervo, a pessoa em questão continua a ter sensibilidade, reflexos, até os resultados das electromiografias ao longo do tempo apresentam valores normais. O que mudou foi, a perda de sensação que os dedos lhe pertencem.

Consegui aumentar a sensação de pertença com terapia miofascial.

Apresento aqui a situação deste “desembodiment”:

Percebi logo que se tratava dos neurónios proprioceptores.

A propriocepção dá-nos informação da posição das várias partes do corpo, sem termos de olhar para confirmar. Informa-nos da amplitude de movimento de uma articulação, estado de distensão dos músculos, tensão sobre os tendões, posição das articulações e vibração profunda… consciência corporal por assim dizer. É fundamental para a maior parte das nossas actividades, desde escrever ao computador sem olhar para as teclas, apanhar um objecto do ar, levar um garfo à boca sem nos espetarmos, pedalar numa bicicleta sem olhar para os pedais, abrir um para-quedas em plena queda livre, desviar uma flecha com uma espada e outras actividades rotineiras…

O Sistema Nervoso Central tem uma via ascendente chamada Sistema Lemniscal Dorsal, que é uma das vias envolvidas na percepção consciente dos estímulos externos. Além da sensibilidade táctil discriminativa, pressão e vibração, este sistema é responsável pela propriocepção. Apesar deste sistema não conter fibras da dor, os receptores tácteis que contem são activados pelos mesmos estímulos que activam os receptores de dor, e assim ajudam a localizar a dor.

Existem receptores tónicos que geram potenciais de acção sempre que o estímulo é aplicado, e os receptores fásicos que são sensíveis a alterações nos estímulos. Os primeiros permitem-nos saber onde está o nosso pé (por exemplo) (sensação posicional articular estática) e os segundos permitem-nos saber onde está o mesmo pé durante um movimento (posição articular cinestésica).

Os tipos de terminações nervosas implicadas na propriocepção   (não exclusivamente) são: Terminações nervosas livres, Corpúsculos de Pacini, Órgãos Tendinosos de Golgi e os Filamentos musculares.

Alguns testes de Propriocepção Consciente que se podem fazer são:

  • A pessoa com os olhos fechados vai-nos dizer se consegue identificar se estamos a esticar ou flectir determinada articulação.
  • Mover o membro da pessoa com os olhos fechados e pedir-lhe para colocar o membro oposto na mesma posição
  • Usar um diapasão (as frequências podem variar consoante alguns factores, mas uma de 128 Hz) e pedir à pessoa para dizer se lhe tocamos com o diapasão a vibrar ou não. (É conveniente ter 2 para podermos enganar a pessoa, bater com o diapasão para a pessoa ouvir som, mas tocar com o outro diapasão. Atenção aqui: usar para isto diapasões diferentes para não haver o efeito de ressonância no caso de termos um em cada mão)
  • Pedir à pessoa para identificar alguns objectos pelo toque cutâneo

A terapia miofascial teve resultados favoráveis nesta situação porque muitos dos receptores nervosos se encontrarem na fascia. Os Órgãos Tendinosos de Golgi têm as terminações nervosas encapsuladas entrelaçadas aos feixes de colagénio do tendão.

Os Corpúsculos de Pacini e Terminações nervosas livres respondem à deformação mecânica da cápsula e dos ligamentos. A cápsula e os ligamentos são feitos de tipos distintos de tecido conjuntivo.

A miofascia é nada mais nada menos que o tecido conjuntivo que envolve o músculo. É um sistema que foi descoberto, ou dada importância, há relativamente pouco tempo. Que ainda se tem descoberto muita coisa e ainda há muita por descobrir. Uma das coisas que se descobriu é que há muito mais receptores nervosos na miofáscia que no músculo.

(Paralelamente e para usar outra situação: há terminações nervosas no periósteo e não no interior do osso.)

Desta maneira ter actuado na fascia actuou indirectamente nos receptores nervosos e restituiu um pouco em casa sessão a sensação.

Bibliografia consultada:

“Neuroscience: Fundamentals for Rehabilitation, Third Edition”; Laurie Lundy-Ekman; 2007; Elsevier Science Limited

“Anatomia & Fisiologia” Terceira Edição ; Seeley, Stephens, Tate; 1997; Lusodidacta

“Articulações Estrutura e Função: Uma abordagem Prática e Abrangente”; Cynthia C. Norkin, Pamela K. Levangie; 2001; Livraria e Editora RevinteR Ltda

  1. Optimo artigo!

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